Os 100 Maiores Discos da Música Brasileira (Segundo a Rolling Stone)


A dicussão sobre quais são os grandes discos da música brasileira é um tema mais dinâmico do que é possível supor. É notório que as perspectivas de apreciação se modificam em curtos períodos, mas é natural que existam algumas unanimidade difíceis de se desbancar. Em uma votação sem precedentes na imprensa nacional, a Rolling Stone Brasil convocou estudiosos, produtores e jornalistas para eleger os maiores discos da nossa música em todos os tempos. A cada um dos 60 eleitores, foi solicitado que escolhesse 20 discos, sem ordem de preferência. Os critérios analisados incluíram valor artístico intrínseco e importância histórica, ou seja, o quanto o álbum influenciou outros artistas. Todos os votos foram somados e resultaram em uma lista de 100 discos essenciais, que você acompanha a seguir:



#100 | Egberto Gismonti - Circense (1980)
Multiinstrumentista e compositor, o carioca Gismonti é unanimidade entre apreciadores da música instrumental no Brasil. Viveu e estudou no exterior, mas nunca deixou de lado suas raízes musicais, especialmente o choro e a música nordestina. Apesar de apreciada no mundo inteiro, sua música ainda hoje é rotulada de “difícil”, tal qual um Villa-Lobos moderno. Lançou dezenas de discos, alguns contendo peças que se tornariam sucessos, como “Palhaço” (que faz parte de Circense), além de outros temas relacionados ao circo, como “Equilibrista”, “Mágico” e “Ciranda”



#99| RPM – Revoluções Por Minuto (1985)
Vocalista e sexy symbol de uma geração, Paulo Ricardo (e seu RPM) foi um verdadeiro foguete da música nacional: com suas influências londrinas (e da new wave) e apresentações carregadas de aparatos tecnológicos, alcançou vendagem nunca alcançada por grupos de sua geração. O primeiro registro mostra vocação para o sucesso desde a primeira faixa, com hits como “Rádio Pirata”, “Olhar 43” e “A Cruz e a Espada”. A revolução proposta pelo RPM acabou rendendo um pouco mais do que os tradicionais 15 minutos de fama.



#98| Elis Regina – Elis (1972)
Estão aqui os registros de canções que se tornariam clássicos absolutos da música brasileira. Elis sempre foi uma garimpeira de talentos, e revela Sueli Costa em “Vinte Anos Blue”, João Bosco e Aldir Blanc em “Bala com Bala”, Fagner e Belchior em “Mucuripe”, Zé Rodrix e Tavito em “Casa no Campo”. De Milton Nascimento, “Cais” e “Nada Será como Antes”. De Ivan Lins, “Me Deixa em Paz”. Como se isso não bastasse, some-se “Águas de Março” (Tom Jobim) e “Atrás da Porta” (Chico Buarque), dois clássicos. Um repertório que extrapola o tempo.



#97| Caetano Veloso – Aráça Azul (1972)
Considerado a mais radical experiência do tropicalista Caetano Veloso, da proposta musical até a capa, Araçá Azul foi considerado um sucesso em devoluções. Descrito como “disco para entendidos”, foi seu primeiro trabalho de estúdio produzido no Brasil após o exílio em Londres . Uma das ousadias foi o convite para a cantora Dona Edith do Prato, que canta ao seu lado acompanhada de pratos e talheres. É um álbum que também revela o Caetano intérprete, em “Tu Me Acostumbrastes”, de Frank Dominguez, e “Cravo e Canela”, de Milton Nascimento.

Download


#96| Júpiter Maçã - A Sétima Efervescência (1996)
Um raio lisérgico atingiu a cabeça do ex-Cascavellette Flávio Basso nos anos 1990 e ele reuniu diferentes pontas soltas pelo rock – jovem guarda, mod, garagem e psicodelia – em um disco forte, coeso e chapado. Começa com “Lugar do Caralho”, um cavalo- de-tróia que não prepara o ouvinte para a chuva Technicolor de referências – que flutuam ao redor do compositor como alucinações sorridentes. Em algum lugar entre Roberto Carlos, Rita Lee e Syd Barrett, Júpiter sente seu corpo derreter, visita planetas e conversa com seres imaginários. “Lóki” é elogio.



#95| Doces Bárbaros - Gil, Bethânia, Caetano e Gal (1976)
Registro ao vivo da turnê de concepção hippie do grupo Doces Bárbaros, que teve a carreira interrompida em Florianópolis, quando Gil foi preso por porte de maconha e internado em uma clínica. Show e disco, apesar do sucesso, foram acusados de ter um tom escapista e festivo, em contraponto à resistência à ditadura por outra vertente da MPB. Destaques para “Um Índio” (Caetano), “Esotérico” (Gil) e “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento). Além do álbum, a turnê resultou também em um documentário dirigido por Jom Tob Azulay.



#94| Ira! - Vivendo E Não Aprendendo (1986)
O então quarteto paulistano passou com louvor no famigerado teste do segundo disco. Clássicos como “Envelheço na Cidade” e “Dias de Luta” mostraram como o som do Ira! – aquela coisa que o identifica não importa qual nova música faça – se consolidou neste álbum. “Flores em Você” foi além: tornou a banda reconhecida até pelo público da novela das 8 (a faixa foi o tema de abertura da novela O Outro). Por essas e outras, se tornou o disco de cabeceira de muitos roqueiros durante os anos 80.



#93| O Rappa - Lado B, Lado A (1999)
Lado B, Lado A é o divisor de águas da carreira dos cariocas de O Rappa. Neste disco, o discurso social do então baterista Marcelo Yuka tomou de assalto as FMs brasileiras na voz de Falcão. E não apenas isso, o clipe de “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, dirigido por Kátia Lund e Paulo Lins (pré-Cidade de Deus), escancarava a vida na favela de uma forma nunca antes vista. O Rappa tornava-se então o porta-voz da periferia, misturando dub, rock e hiphop, enquanto emplacava hits como “Me Deixa” e “O que Sobrou do Céu”.



#92| Tom Jobim - Wave (1967)
Escolhido pela revista Guitar Player como um dos 40 álbuns mais importantes lançados no mercado americano nos últimos 40 anos, Wave é a coroação de um mito. Tom Jobim toca piano e violão acompanhado de músicos de peso como Ron Carter (baixo), Dom Um Romão, Bobby Rosengarden e Claudio Slon (baterias), Joseph Singer (trompa) Ray Beckenstein, Romeo Penque, Jerome Richardson (flautas), Urbie Green e Jimmy Cleveland (trombones). “Wave” – para citar apenas uma faixa do disco – é até hoje uma das músicas mais executadas no mundo.



#91| Gal Costa - Cantar (1974)
Arranjos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Perinho de Albuquerque e João Donato resultaram um álbum com sonoridade bossa nova, interpretação calma, voz contida e um certo balanço. “Barato Total” (Gilberto Gil), “Até Quem Sabe” (João Donato) e “Lágrimas Negras” (Jorge Mautner e Nelson Jacobina) são os destaques de Cantar. “Canção que Morre no Ar” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) é a única com acompanhamento orquestral e é onde a voz de Gal brilha. “Chululu”, canção de ninar de dona Mariah (mãe de Gal), que embalava o sono da cantora, é a curiosidade.



#90| João Donato - Quem é Quem (1973)
O time reunido por João Donato em Quem É Quem é forte, como quase sempre acontece em seus discos. Dori Caymmi e Laércio de Freitas assinam os arranjos e Marcos Valle é o assistente de produção, enquanto o baixista Bebeto e o percussionista Naná Vasconcelos acompanham o pianista no estúdio. Donato se permite cantar, inaugurando um estilo inconfundível. Lançado um ano depois de seu retorno ao Brasil, após anos morando nos Estados Unidos, o disco é um reencontro de Donato com o samba-jazz, envenenado por seus experimentos elétricos no exterior.

Download


#89| Mundo Livre S/A - Carnaval Na Obra (1998)
Após a morte de Chico Science, uma lacuna no movimento mangue beat aguardava para ser preenchida por Fred Zero Quatro e o Mundo Livre S/A. No primeiro disco após a tragédia, ele se afastou do movimento que ajudou a criar, deixando aflorar seu lado sambista à la Jorge Ben (Jor). Carnaval na Obraé uma coleção perfeita de hits suingados – “Alice Williams”, “Bolo de Ameixa”, “Édipo”. O fio condutor é o cavaquinho elétrico, mesclado a guitarras cheias de overdrive e percussão de samba – a cama perfeita para o lirismo sempre inspirado de Zero Quatro.



#88| Racionais MC's - Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002)
A ascensão dos Racionais está ligada à paulistanização do Brasil. À medida que o dinheiro do Rio se deslocava para o outro lado da Dutra, o Brasil deixou de falar “s” chiado para chamar os caras de “mano”. Os Racionais são o Legião Urbana da parte pobre do país e Renato Russo era só um indie birrento perto do magnetismo de Mano Brown. E se música é filme, Nada... é algo entre o Godfellas e o Casino do gangsta brasileiro, e transforma o rap na trilha de um Brasil paulistano, cheio da grana e desconfiado. Barão e noiado. “Vida Loka”, como dizem.



#87| Marisa Monte - Verde Anil, Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994)
Consolidação de parcerias, texturas múltiplas e estilo marcam Cor de Rosa e Carvão, uma poesia sonora que traz a música do presente e do passado, respeitadas e reinventadas. Ao modo Marisa Monte de agregar, estão aí: Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Jamelão, Jorge Ben Jor, Lou Reed... “O Brasil não é só verde, anil e amarelo. O Brasil também é cor-de-rosa e carvão”, são os versos que dão nome ao disco – e vêm de “Seo Zé”, de Monte, Brown e Nando, que traduz a atmosfera dessa audição, mas não faz parte de seu repertório.



#86| Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia - Beleléu. Leléu, Eu (1980)
Em 1979, Itamar Assumpção chamaria a atenção para o movimento Vanguarda Paulistana com a apresentação de “Nego Dito” no Festival da Feira da Vila Madalena. Em 1980, ao lado da Banda Isca de Polícia, o músico assumiria de vez o personagem maldito ao contar a história de seu alter ego Beleléu (ou Nego Dito) em canções carregadas de interpretação. Lançado pela gravadora Lira Paulistana, o disco lhe garantiria espaço definitivo entre os grandes compositores brasileiros e o papel de desequilibrador da relação entre crítica e público.



#85| Roberto Carlos - Jovem Guarda (1965)
Mais do que pelo repertório, o sexto álbum da carreira de Roberto Carlos ficou famoso por ajudar na popularização do jargão “jovem guarda”. Entre letras ingênuas e acompanhamentos baseados no órgão – instrumento que era o must da época –, o disco foi capitaneado pelo megassucesso “Quero que Tudo Vá pro Inferno” (de Roberto e Erasmo Carlos, que assinam mais duas faixas em parceria). Das nove restantes, destacam-se o também sucesso “Coimbra”, além de “Pega Ladrão”, “Escreva Uma Carta Meu Amor” e a versão “Lobo Mau” (no original, “The Wanderer”).

Download


#84| Caetano Veloso - Qualquer Coisa (1975)
São raríssimos os artistas que se adaptam ao mote “quanto mais hippie melhor” – e até aqui encontramos Caetano Veloso. No pacote duplo de 1975, ele agarra-se aos Beatles (a capa de Qualquer Coisa sampleia a de Let It Be, a de Jóia vem do primeiro solo de Lennon, Two Virgins – além das versões para “Help!”, “Lady Madonna”, “Eleanor Rigby” e “For No One”) para tornar-se mínimo. Aqui, quase sempre ouvimos Caetano, seu violão, algum vocal de apoio, certa percussão, flautinha ali, teclado acolá – tudo discreto, lírico e sutil. Uma carta de intenções sussurrada ao ouvido.



#83| Tom Jobim - Matita Perê (1973)
Tom Jobim, principalmente no período em que viveu nos Estados Unidos, costumava gravar acompanhado por grande orquestra, mas sem abrir mão de pequenas formações, o que oferecia interessantes alternativas sonoras. Matita Perê, feito em Nova York, trazia arranjos e regência do alemão Claus Ogerman. Tom estava nos vocais, piano e violão, com Airto Moreira e João Palma na percussão. No repertório, a impactante suíte “Crônica da Casa Assassinada” e canções como “Ana Luiza” e “Águas de Março”, esta última na primeira gravação do autor.



#82| Roberto Carlos - O Inimitável (1968)
Nesse momento de sua carreira, Roberto Carlos já enfrentava os seus primeiros imitadores – Paulo Sérgio foi o único que alcançou algum êxito – e o título do álbum (O Inimitável) assim se justifica. Além disso, algo estava mudando na forma de Roberto interpretar: a melosidade de sua voz foi substituída por algo mais agressivo, um tanto semelhante a um timbre de black music. Destaques para “Se Você Pensa”, “As Canções que Você Fez pra Mim” e “Não Há Dinheiro que Pague”. E uma que vale pela curiosidade até hoje, a quase bossa “Madrasta”.



#81| Ira! - Psicoacústica (1988)
“Eu fico tentando me satisfazer/ com outros sons, outras batidas, outras pulsações/ o planeta é grande e eu vou descobrir muitas respostas à minha pergunta agora”, canta Edgar Scandurra em “Farto do Rock’n’ Roll”, faixa em que ele exibe toda a sua genialidade e que reflete bem o sentimento do Ira! quando compôsPsicoacústica. A influência do cinema de Rogério Sganzerla (“Rubro Zorro”), do hip-hop (“Advogado do Diabo”) e a capa com hologramas fez do álbum um dos mais ousados de sua época – o que não necessariamente refletiu em boas vendas.



#80| Gal Costa – Gal Costa (1969)
A discípula de João Gilberto, que cantava mansinho no álbum dividido com Caetano Veloso dois anos antes, solta a voz em estréia solo e se torna a figura feminina mais importante da tropicália. As referências agora são Janis Joplin e James Brown, ainda que haja muita bossa nova incrustada nas canções. Além dos companheiros tropicalistas Caetano, Gil e Tom Zé, o repertório aponta os compositores que, indiretamente, mais contribuiriam para o movimento: Jorge Ben, Roberto e Erasmo Carlos. Tudo costurado com os irretocáveis arranjos de Rogério Duprat.



#79| Maria Bethânia - Álibi (1978)
Com Álibi, Maria Bethânia superou uma barreira até então jamais realizada na música brasileira por uma intérprete feminina: a astronômica marca de mais de 1 milhão de cópias vendidas. Além de “Álibi”, de Djavan, que dá nome ao disco, aqui está o megassucesso “Explode Coração”, ao lado de “Negue”, “Sonho Meu” em dueto com Gal Costa, “Cálice” , “De todas as Maneiras”, “Ronda”, entre tantas outras. Todos esses registros se tornaram posteriormente referências de interpretação, clássicos da música brasileira e campeões de execuções em rádio.



#78| Gilberto Gil - Gilberto Gil (1968)
O fardão da Academia Brasileira de Letras na capa do segundo disco do futuro Ministro da Cultura entrega: entramos em território de Sgt. Pepper. Mas o filtro tropicalista vai além dos choques de contrastes propostos pelo disco-manifesto. Em vez do conflito, vemos a banda do sargento Pimenta subir o coreto da praça de alguma cidade do interior. Gil rege o disco com batuta de Rogério Duprat e a assistência de Os Mutantes. A certa altura de “Pega a Volta Cabeludo”, o baterista Dirceu resume a vanguarda e a brejeirice: “O som psicodélico é redondo que só uma gota”.



#77| Dorival Caymmi - Canções Praieiras (1954)
Quando Dorival Caymmi lançou Canções Praieiras, ele imortalizou, em música, o inconsciente de um povo. A Bahia de Caymmi na Salvador dos anos 30, suas praias mais óbvias e circundantes – e até então pouco conhecidas como Itapuã – foram sopradas em palavras e dedilhados. Foi quando se formou o imaginário brasileiro que até hoje conhecemos sobre a Bahia, seus personagens, medos e desejos, santos, oferendas e graças. Suas Canções Praieiras são a invenção musical do homem baiano e, por que não?, brasileiro. Caymmi é o compositor do Brasil.



#76| João Donato - A Bad Donato (1970)
Morando nos Estados Unidos, Donato ganhou carta branca da gravadora para fazer o disco que quisesse, com direito a uma verba para equipamentos. Decidiu então fazer experimentos com sintetizadores e pianos elétricos. Montou uma banda assustadora (incluindo integrantes da orquestra de Stan Kenton), convidou o arranjador Eumir Deodato e gravou o irrepreensível A Bad Donato. Declaradamente influenciado por James Brown e Jimi Hendrix, o disco (tido como um marco do jazz fusion) faz uma fusão genial do funk com a música brasileira.



#75| Tim Maia - Tim Maia (1971)
Segundo álbum da carreira do mestre do soul brasileiro que, naquela época, já colecionava sucessos. Para Tim, não importava muito o gênero musical, uma vez que ele adaptava tudo para sua interpretação. É o caso do baião “A Festa do Santo Reis” (Márcio Leonardo) e o sambacanção “Preciso Aprender a Ser Só” (Marcos e Paulo Sérgio Valle). O disco também traz vários clássicos da autoria de Tim – três deles com letras em inglês – como “I Don’t Care”, “Broken Heart”, “I Don’t Know What to do with Myself”, “Não Quero Dinheiro” e “Meu País”.

Download


#74| Titãs - Õ Blesq Blom (1989)
Por mais que a pecha de “banda de rock” caísse como uma luva para o octeto, os Titãs nasceram no terreno fertilizado pela vanguarda paulistana dos anos 80. E, por mais que fizessem barulho, nunca deixaram de lado seu apreço pelo cabecismo – e foram terraplanando a base para seu Grande Álbum de Arte. Esse aconteceu no fim da década, quando Õ Blésq Blom deu ao grupo seu ápice criativo. Depois, integrantes deixariam o barco e a banda perderia o prumo. E, se antes apontava para o alto, estabilizou-se numa reta horizontal – levemente inclinada para baixo.



#73| Angela Ro Ro - Angela Ro Ro (1979)
Fruto suculento da árvore genealógica de Maysa, Angela despeja nesse seu primeiro álbum toda a produção acumulada nos 29 turbulentos anos que sua vida somava até ali. Em seu jorro emocional, a artista expõe suas dores e agoniza diante do público sem o menor pudor. “Amor, Meu Grande Amor” está entre as 12 faixas do disco, que influenciaria Cazuza de forma irreversível nos anos 80 e atingiria, já nos 90, a obra de Cássia Eller. Artistas que, como Angela, correram todos os riscos e pagaram o preço de uma vida levada às últimas conseqüências.



#72| Os Mutantes - Jardim Elétrico (1971)
Quarto dos cinco álbuns da primeira fase da banda,Jardim Elétrico dilui os preceitos tropicalistas iniciais em sonoridade de rock progressivo – a mesma que, no ano seguinte, resultaria na saída de Rita Lee e no fim do contrato com a Polydor. Mas, é bom lembrar, nada disso faz desta uma peça menor dentro da discografia mutante. A inventividade do grupo permanece intacta em faixas como “Tecnicolor” ou “El Justiciero”. “Top Top” e a versão bossa em inglês para “Baby” retrossurgiriam quase 30 anos depois, em gravações de Cássia Eller e Bebel Gilberto.



#71| Aracy de Almeida - Noel Rosa e Aracy de Almeida (1950)
A década de 1930 no Rio faz parte de um período histórico para a identidade musical brasileira. Foi ali, mais precisamente na Vila Isabel, que surgiu Noel Rosa, um dos nossos mais inspirados compositores. Nesta coletânea de 1950, com capa desenhada por Di Cavalcanti (formada pelo conteúdo de três discos de 78 rotações), a boêmia Aracy de Almeida interpreta as criações do Poeta da Vila. Essa inspirada junção de dois gênios resulta em clássicos como “Com Que Roupa”, “Fita Amarela” e “O Orvalho Vem Caindo”.



#70| Stan Getz, João Gilberto e Antonio Carlos Jobim - Getz/Gilberto (1963)
Esta obra-prima da bossa nova foi gravada em apenas dois dias de 1963, em Nova York. Stan Getz gostava da música brasileira, mas juntá-lo a Tom Jobim e João Gilberto foi obra do produtor Creed Taylor, que andava entusiasmado com o sucesso da bossa nova desde o memorável show no Carnagie Hall, um ano antes. O disco teve participação de Astrud Gilberto, mulher de João na época, em “Garota de Ipanema”, que contribuiu para o sucesso mundial do álbum e proporcionou a João os Grammys de cantor e violonista.



#69| Mundo Livre S/A - Samba Esquema Noise (1994)
Ao lado de Chico Science e do radialista Renato L., Fred Zero Quatro ajudou a forjar o maior movimento musical brasileiro dos últimos anos – o mangue beat. Armados do manifesto “Caranguejos com Cérebro”, os mangueboys invadiram o Sudeste e, em seguida, o resto do mundo com letras inteligentes e a mistura de eletrônica, maracatu, rock e samba. Samba Esquema Noise traz essa diversidade, misturando guitarras pesadas ao cavaquinho de Zero Quatro, facilmente observáveis em faixas como “Manguebit”, “O Rapaz do B... Preto” e “Musa da Ilha Grande”.



#68| Los Hermanos – Ventura (2003)
“Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?”, pergunta Marcelo Camelo, acompanhado de dois clichês da MPB de barzinho (a guitarra com acordes puxados e a bateria aro de caixa). Mas em menos de meio minuto, a banda engata uma batucada quadrada, indie de tão branca. É a contramão do samba-rock, o rock-samba inventado pelo antigo grupo de skacore de Bloco do Eu Sozinho. O tema parece indigesto (rock tocado como se fosse MPB), mas o quarteto passeia desenvolto por um universo todo seu, entre descrições precisas de um cotidiano classe média e melodias memoráveis.



#67| Jorge Ben – África Brasil (1976)
Depois da psicodelia acústica de A Tábua de Esmeralda e do exorcismo ao vivo com Gilberto Gil, Ben larga o violão e assume a guitarra como instrumento de condução – num conjunto de canções de valor inestimável. “Ele chegou descontraído, chegou filosofando num tom de voz meio angelical”, apresentase em “O Filósofo”, pisando passos mais firmes e elétricos que os do mutante que atravessou os anos 60 entre a bossa nova, o tropicalismo e a jovem guarda. Ben choca cuíca, tamborim, apito e pandeiro com baixo, guitarra, teclado e bateria. Voa, Jorge!



#66| Caetano Veloso - Cinema Transcendental (1979)
Um álbum que soa acústico e leve, apesar dos teclados, baixo, bateria, percussão, violões e guitarras. O sucesso de faixas como “Lua de São Jorge”, “Badauê”, “Menino do Rio”, “Beleza Pura”, “Cajuína”, “Oração ao Tempo” e “Trilhos Urbanos” deu uma guinada na carreira de Caetano (especialmente “Beleza Pura” que, por conta de sua proposta dançante, foi a mais executada do disco). “Menino do Rio” faria sucesso também na voz de Baby Consuelo. Traz ainda “Vampiro”, uma estranha e moderna canção de Jorge Mautner, composta em 1964.



#65| Nelson Cavaquinho - Nelson Cavaquinho (1973)
Ainda que conhecidíssimos em gravações de grandes intérpretes (Clara Nunes, Beth Carvalho, Elis), sambas como “Juízo Final”, “Folhas Secas”, “A Flor e o Espinho”, “Rugas” e “Quando Eu Me Chamar Saudade” ganham aqui nuances inesperadas na voz suja e personalíssima do autor. Neste álbum, Nelson grava pela primeira vez se acompanhando ao cavaquinho, instrumento que abandonara pelo violão, e que só voltou a tocar porque um bêbado presente em seu show no Teatro Opinião fez a provocação: “Você não é Nelson Cavaquinho? Então toca!”.

Download


#64| Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale - Show Opinião (1965)
Registro do histórico espetáculo homônimo – o militante Opinião –, composto por músicas de João do Vale, Zé Kéti, Sérgio Ricardo, Edu Lobo, Carlos Lyra, entre outros. O engajamento político de Nara Leão, apelidada de “a musa do protesto”, antes uma cantora envolvida com a bossa nova, gerou ressentimentos de seus amigos das empreitadas anteriores, que mandavam recados insultuosos pela imprensa. “Carcará” (de João do Vale e José Cândido) revelaria mais tarde Maria Bethânia, que tomou parte do show após a saída de Nara.



#63| Milton Nascimento - Milagre Dos Peixes (1973)
Álbum inovador a partir da capa-pôster – um corte de mão segura um bebê, que seria o tão cantado Pablo –,Milagre... é trabalho denso, fruto da época também densa, acompanhado de uma banda e orquestra de mais de 20 elementos. Tem arranjos de Paulo Moura e Wagner Tiso, participações vocais de Sirlan e Clementina de Jesus e percussão de Naná Vasconcelos. Curiosamente, algumas músicas só são vocalizadas, pois suas letras foram censuradas. Milton Nascimento só confirma o que já estava delineado: a voz masculina mais marcante da MPB de todos os tempos.



#62| Marisa Monte - MM (1989)
Nesse primeiro disco – gravado ao vivo –, Marisa funde estilos e redefine “ecletismo” para as intérpretes daquela década. Produzido por Nelson Motta, MM apresenta “a voz”, a artista que mexe nas emoções com técnica erudita. E Monte imortaliza Titãs (“Comida”), Zé Dantas e Luiz Gonzaga (“O Xote das Meninas”), Mutantes (“Ando Meio Desligado”), Tim Maia (“Chocolate”), Pino Daniele e Nelson Motta (“Bem Que Se Quis”), entre outras ousadias de um trabalho que ela afirmou ser composto simplesmente de “músicas que gostava de cantar”.



#61| Jorge Ben - Força Bruta (1970)
Quem disse que Jorge Ben não pode soar triste? Depois de uma investida bem-sucedida em terreno tropicalista em 1969, o cantor abre a nova década com aquele que seria o álbum mais melancólico de sua carreira. Ao seu violão acústico, junta-se a percussão do Trio Mocotó, que, reza a lenda, aprendeu todas as músicas durante as apenas três sessões de estúdio em que o disco foi gravado. A pouca instrumentação acentua ainda mais a beleza das melodias e dá força aos falsetes de Jorge, melhores aqui do que jamais seriam.



#60| Gilberto Gil e Jorge Ben - Ogum Xangô (1975)
Duplo, este álbum representa o feliz encontro de dois mestres do suingue no melhor de suas formas. Gil e Jorge é um exemplo do que podem fazer dois talentos, duas vozes e dois violões e alguma percussão no momento preciso. São quatro faixas de cada autor e uma em parceria (“Sarro”). De Gil: “Nêga”, “Filhos de Gandhi”, “Jurubeba” e “Essa É pra Tocar no Rádio”. De Jorge: “Meu Glorioso São Cristóvão”, “Taj Mahal”, “Quem mandou (Pé na estrada)”, “Morre o Burro Fica o Homem”. 80 minutos de balanço, curtição vocal, improviso e duetos.



#59| Elizeth Cardoso - Canção do Amor Demais (1958)
Disco que inaugura o que conhecemos por bossa nova – não só por trazer na voz de uma cantora experiente as mais belas canções que a parceria Tom e Vinicius já havia produzido, mas também pelos arranjos de Jobim para temas de amor (e que corriam o risco de serem embalados em orquestrações melosas, tão ao gosto do samba-canção de então). Não bastasse, é a primeira vez que se ouve ao violão aquela “batida diferente”, em “Chega de Saudade” e “Outra Vez”. João Gilberto dá o norte do que seria a execução do violão moderno no Brasil.



#58| Tom Jobim - Antônio Carlos Jobim (1963)
Primeiro álbum solo de Tom Jobim feito nos Estados Unidos, com arranjos do maestro Claus Ogerman. Jobim toca piano e violão, acompanhado de Leo Wright (flauta), Jimmy Cleveland (trombone), George Duvivier (baixo) e Edson Machado (bateria). No repertório, 12 obras-primas da bossa nova: “Garota de Ipanema”, “Insensatez” e “Desafinado”. Escreveu o crítico Pete Welding, da publicação especializada em jazz Down Beat: “Se o movimento da bossa nova tivesse produzido apenas este disco, já estaria plenamente justificado”.



#57| Sepultura - Roots (1996)
Quando nada mais inovador parecia acontecer no metal, o Sepultura apresentou ao mundo Roots, divisor de águas no gênero e na carreira do grupo. A figura de um índio xavante (tribo que participou da faixa “Itsari”) na capa já demonstrava que a banda foi buscar em suas raízes a fórmula para este que foi um dos maiores discos de thrash da década de 1990. As participações de Carlinhos Brown (“Ratamahatta”), Jonathan Davis e Mike Patton (“Lookaway”), aliadas ao fato de Roots ser o último álbum com Max Cavalera nos vocais, só aumentam o valor histórico.



#56| João Gilberto - Amoroso (1977)
Álbum gravado em Nova York com arranjos de cordas criados pelo alemão Claus Ogerman – maestro que acompanhava Tom Jobim em discos desde 1963. João explora as possibilidades internacionais e canta em inglês (“S Wonderful”), italiano (“Estate”) e espanhol (“Besame Mucho”) com aquele seu sotaque característico, capaz de amaciar as possíveis durezas de qualquer idioma. Do cancioneiro brasileiro, escolheu “Wave”, “Caminhos Cruzados”, “Triste” e “Retrato em Branco e Preto” – todas de Jobim. Mais universal, impossível.



#55| Paulinho da Viola – Nervos de Aço (1973)
O 12º disco de Paulinho da Viola vem embalado em uma das mais belas capas desenhadas pelo artista Elifas Andreato. A ilustração define o clima de “choro” do álbum, permeado de desilusões amorosas. O garimpeiro de jóias, Paulinho, abre o disco com “Sentimentos”, de Mijinha, da Velha Guarda da Portela, que depois seria interpretada por muitos outros cantores. Pela primeira vez, Paulinho canta Chico Buarque (“Sonho de um Carnaval”). E, para coroar essa garimpagem, traz ainda “Nervos de Aço” (Lupicínio Rodrigues), um clássico da dor-de-cotovelo.

Download


#54| Gilberto Gil - Refavela (1977)
A paisagem apresentada é a renovação do cenário da favela, mas, em contraponto ao clima campestre do disco anterior (Refazenda), Refavela não é só um disco de periferia. É um álbum de ponto de vista urbano, cantando dores e prazeres da vida na cidade, mas sem a visão apocalíptica da inevitabilidade da metrópole: Gil encara ruas e prédios como criação humana e, portanto, da natureza. Maravilhado com o despertar das consciências nacionais, o baiano usa o violão como guitarra de funk e propõe uma abordagem rítmica sobre a tensão da cidade. E assim Gil continua se revendo.



#53| Raul Seixas - Novo Aeon (1975)
O Brasil não teve seu Elvis, Roberto Carlos era certinho demais para o papel. Sua persona foi bater na porta de um baiano que entendeu o rock como um baião arrogante, encontrando semelhanças – às vezes óbvias – em Luiz Gonzaga e Robert Johnson. Novo Aeon refina o personagem que Raul criava: ególatra (“Eu Sou Egoísta”), inseguro (“Para Nóia”), hedonista (“A Maçã”) e esquizofrenicamente brasileiro (“É Fim de Mês”). Mas é em épicos como “Tente Outra Vez” e na faixa-título que as palavras “rock” e “brasileiro”, aparentemente antagônicas, soam como uma só.



#52| Cartola - Cartola (1974)
Machado de Assis tinha pouco mais de 30 anos quando lançou seu primeiro livro, e quase 60 quando fundou a Academia Brasileira de Letras. Com Cartola foi o inverso – ele fundou a Estação Primeira de Mangueira com 20, mas só foi lançado em disco aos 65. Conhecemos um compositor do primeiro escalão e um cantor que encontrou a temperatura exata do calor familiar em seu timbre frágil e suave. Em seu primeiro LP, ele exibe canções com o orgulho de um ourives apresentando jóias trabalhadas há décadas. E o repertório – inacreditável, como a execução – vale ouro.



#51| Arrigo Barnabé - Clara Crocodilo (1980)
Surgido no clima efervescente da música paulista nos anos 80, Clara Crocodilo é uma usina sonora que mistura música erudita contemporânea de vanguarda, dodecafonismo, pop e rock pesado. Ao mesmo tempo, é uma “ópera pop” cujo pano de fundo é a vida degradada nas cidades. Acompanhado da banda Sabor de Veneno e gravado de forma independente, o disco foi aclamado como o mais inventivo criado fora dos moldes do que se entende por música popular tradicional e solidificou a carreira do então pouco conhecido Arrigo Barnabé.



#50| Walter Franco - Revolver (1975)
Você já ouviu este disco: um gênio improvável em uma trip solitária beirando o autismo, seguido de uma banda azeitada no jazz-rock setentão. Essa fórmula deu origem a jóias como Astral Weeks, Histoire de Melodie Nelson e, aqui, ao ímpar Revolver. O disco consagra o estilo de Walter Franco e combina a sabedoria ancestral do trocadilho com brincadeiras concretistas em forma de letras. Também é daqueles momentos únicos no Brasil, quando intelectualidade lírica acompanha de igual para igual o instrumental vigoroso de uma banda de rock.



#49| Tim Maia - Racional Vol. 2 (1976)
Depois de lançar Racional Volume 2, Tim Maia se desencantou com a cultura racional e suspendeu tanto sua fabricação quanto a do álbum anterior. Mas só o cantor não gostava deles. Volume 2 é seu trabalho mais voltado para o funk e registra uma banda absurdamente afiada – sem esquecer de que o vozeirão do cantor, momentaneamente afastado das drogas e do álcool, estava no seu auge. O baile começa com “Quer Queira Quer Não Queira”, ganha tempero latino em “Que Legal” e descamba em transe coletivo com o refrão de “Guiné Bissao, Moçambique e Angola”.



#48| Blitz - As Aventuras da Blitz (1982)
Liderada por Evandro Mesquita, a Blitz transformou o rock brasileiro com o lançamento do compacto Você Não Soube Me Amar, seguido do primeiro LP, As Aventuras da Blitz. O grupo vinha com linguagem inovadora, trazendo a construção lírica descritiva dos quadrinhos. As canções eram extremamente visuais. Os maiores hits foram a já citada “Você Não Soube Me Amar”, “O Romance da Universitária Otária” e “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”. “Ela Quer Morar Comigo na Lua”, censurada depois que o disco estava prensado, já vinha “riscada de fábrica”.



#47| João Gilberto - João Gilberto (1973)
A bossa já não era mais nova quando João Gilberto colocou violão e voz a serviço de outras batidas brasileiras. O álbum de 1973 expande a importância do gênio com dez jóias – a começar por “Águas de Março”, em versão anterior e quase comparável à definitiva, de Elis Regina e Tom Jobim. Mas são as pouco lembradas “Eu Quero um Samba” (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida) e “É Preciso Perdoar” (Carlos Coqueijo e Alcivando Luz) que alcançam o sublime: João canta e toca para desvendar nuances harmônicas e rítmicas escondidas nas canções e emociona.



#46| Sepultura - Chaos A.D. (1993)
Gravado com participações ilustres (Jello Biafra, do Dead Kennedys, e Evan Seinfeld, do Biohazard),Chaos A.D. representou um ponto de inflexão tanto na carreira do Sepultura quanto no cenário do heavy metal mundial. Para o quarteto de origem mineira, a deixa havia sido dada para se enveredar cada vez mais pela música brasileira, conseguindo uma visão única para seu som e lançando posteriormente Roots, outro disco essencial. Para o resto do mundo, via-se ali alternativas para atualizar o gênero. Tool, Korn e toda uma nova geração devem muito a este álbum.



#45| Raimundos - Raimundos (1994)
Digão, Fred, Rodolfo e Canisso – esses quatro candangos (se não de nascença, pelo menos de coração) apaixonados pelos Ramones e simpatizantes do forró de linguagem dúbia – entraram no primeiro escalão do rock nacional na segunda metade dos anos 90. Seu disco de estréia, se não o mais vendido em toda a carreira, foi o mais importante de todos: marcou um novo ciclo de bandas que não repetiriam os clichês (pelo menos não todos) da geração anterior. “Puteiro em João Pessoa” e “Nêga Jurema” são verdadeiros clássicos do rock brasileiro anos 90.



#44| Os Mutantes - Mutantes (1969)
Ainda que se mantenham sob os ensinamentos da cartilha tropicalista, os Mutantes se descolam de Caetano e Gil e esclarecem que estão muito além de uma “banda de apoio” do movimento. O repertório do segundo disco é autoral, mas há duas faixas divididas com Tom Zé. O curioso é que Tom só havia visto os Mutantes uma vez, no dia da foto de capa de Tropicália, e só soube da parceria quando as músicas estavam prontas. Suas letras (“Dois Mil e Um” e “Qualquer Bobagem”) foram parar nas mãos de Rita Lee através de Guilherme Araújo, empresário dos tropicalistas.



#43| Gilberto Gil - Refazenda (1975)
Isso é a história da MPB: a festividade da dupla central da Tropicália sendo abalada pela prisão e exílio na Inglaterra e pela brusca transformação de Gil e Caetano em bardos da Bahia. A distância emocional da terra natal fez com que ambos atravessassem os anos 70 mergulhando em suas origens. Em 1974, Gil volta-se para o campo e alinha ritmos rurais ao mesmo tempo em que reinventa a carreira – a fase “Re” (Refazenda, Refavela, Refestança e Realce): eloqüência, lirismo, um violão preciso e uma voz impressionante. Em Refazenda, vemos nascer esse novo Gil.



#42| Los Hermanos – Bloco do Eu Sozinho (2001)
Após exposição maciça provocada pelo hit “Anna Júlia”, o Los Hermanos surpreendeu sua gravadora, imprensa e fãs com a mudança de direção de Bloco do Eu Sozinho. Em vez de seguir a fórmula que implorava por outra “anna-alguma-coisa”, a sonoridade ska-hardcore-pop do primeiro disco deu lugar a andamentos quebrados, melodias intrincadas e letras reflexivas. Como num recomeço, voltaram a tocar em lugares pequenos e renovaram seu público, que se cristalizaria no terceiro disco e tomaria proporções messiânicas no quarto. O culto começou aqui.



#41| Chico Buarque - Meus Caros Amigos (1976)
A obra cultural de Chico Buarque sempre esteve condicionada aos momentos em que o país vive. Foi assim quando surgiu, e continua sendo assim. Todas as faixas de Meus Caros Amigos trazem referências ao clima da ditadura. Há um quê de abafado na forma de dizer as coisas, algo que pode ser chamado de um “surdo protesto”. Senão, como interpretar “O que Será” – com a participação especial de Milton Nascimento – e “Meu Caro Amigo” – um relato claro de que “a coisa aqui tá preta”? Por outro lado, e como sempre, temos um Chico poeta, dono de um impressionante lirismo.

Download


#40| Legião Urbana - Legião Urbana (1985)
O álbum de estréia do Legião Urbana mostrava uma banda com uma postura acirrada e mais próxima ao punk do que das outras que emergiam no rock nacional. Ainda era herança do Aborto Elétrico, antiga banda de Renato Russo, e de uma cena underground de Brasília que via o poder e seu jogo mais de perto. Daí surgiram “Baader-Meinhof Blues”, “Geração Coca-Cola” e “Teorema”. Primeiro sucesso da banda, “Será” era uma das prediletas de Renato Russo. Segundo ele, tudo sobre o que a banda trataria em toda a carreira já estava lá, naquela música.



#39| Os Paralamas do Sucesso – Selvagem? (1986)
Cansados de ver bandas esbanjando glamour e copiando grupos ingleses, Os Paralamas do Sucesso resolvem ir buscar no Caribe e no Norte do Brasil a inspiração para ir além do rock. Dub, reggae, samba e guitarrada foram incorporados ao repertório do grupo, dando origem a um dos melhores álbuns de sua extensa discografia. Crítica social (“Alagados”), humor (“Melô do Marinheiro”), um cover de Tim Maia (“Você) e uma parceria com Gilberto Gil (“A Novidade”) foram suficientes para tornar Selvagem?um sucesso de vendas – mais de 600 mil cópias foram vendidas na época.



#38| Banda Black Rio - Maria Fumaça (1977)
Oberdan Magalhães, saxofonista influenciado tanto por Cartola quanto por Stevie Wonder, fez parte do movimento carioca da década de 1970 que visava a fusão entre soul e samba. Em 1976, ele montou a Banda Black Rio. Um ano depois, ao lado de músicos tarimbados como o guitarrista Cláudio Stevenson, o pianista Cristóvão Bastos e o baterista Luis Carlos, gravou Maria Fumaça, disco instrumental emblemático carregado de novidades estéticas para a MPB. Além da fusão samba/ soul, o álbum ousa com nítidos temperos de funk e gafieira.



#37| Caetano Veloso - Caetano Veloso (1967)
A Tropicália começava a tomar conta da (contra) cultura do final da década de 1960. O III Festival de Música Popular da TV Record é a prova, com Caetano apresentando o hino da liberdade “Alegria, Alegria” e Gilberto Gil, acompanhado de Os Mutantes, com “Domingo no Parque”. Com as boas colocações de ambas, iniciou-se o maior movimento musical brasileiro. Antes da obra-prima Tropicália (1968), Caetano lança seu primeiro LP, homônimo, com canções como “Tropicália” e “Soy Loco por Ti, América”. E assim antecipava a revolução.



#36| Elis Regina - Falso Brilhante (1976)
Falso Brilhante era o nome do revolucionário show que Elis estreou no final de 1975, no Teatro Paramount. Dirigido por Miriam Muniz, o espetáculo misturava música e interpretação teatral, e fez estrondoso sucesso de público e crítica. O disco gravado em estúdio no ano seguinte só trazia parte desse repertório (e, estranhamente, não incluía a faixa-título), mas mantinha as novidades levadas no palco: arranjos com forte pegada de rock e blues e duas canções políticas de um artista novo: “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, do cearense Belchior.



#35| Tom Zé - Estudando o Samba (1976)
Não tivesse David Byrne encontrado este disco em suas andanças pelo Rio, talvez a história não fosse a mesma. Não que Byrne seja um gênio da filantropia. A culpa é mesmo do Brasil, que esconde os seus melhores artistas. E isso acontecia com o irrequieto, criativo e tropicalista Tom Zé, que preferia virar a música popular ao avesso e ficar na sua. Tem de tudo neste disco: desde a capa com imagens de arame farpado e cordas até recriações originais e arranjos minimalistas, acompanhados de ruídos, sons guturais e gemidos. Tom Zé desconstrói a música e a música sai ganhando.



#34| Arnaldo Baptista – Lóki? (1974)
Recém-saído dos Mutantes – que, sem Rita Lee, já andava mergulhado no rock progressivo –, Arnaldo partiu em carreira solo e produziu o talvez mais melancólico de todos os discos brasileiros. Com toda a tristeza do mundo na voz e uma técnica impressionante ao piano, apresentou sete canções novíssimas, uma faixa de O A e o Z – o disco mutante vetado pela gravadora no ano anterior (que só seria lançado nos anos 90) – e dois números instrumentais. Rogério Duprat colabora em dois arranjos e Rita Lee faz backing vocais em duas faixas.



#33| Dorival Caymmi - Caymmi e seu violão (1959)
Nos anos 50, Dorival Caymmi fez uma série de discos reunindo o melhor de sua obra. São todos fundamentais, mas Caymmi e Seu Violão traz o compositor baiano interpretando suas canções praieiras. São elas: “Canoeiro”, “A Jangada Voltou Só”, “Dois de Fevereiro”, “É Doce Morrer no Mar”, “O Mar”, “Quem Vem Pra Beira do Mar”, “Promessa de Pescador”, “O Vento”, “A Lenda do Abaeté”, “Noite de Temporal” e “Coqueiro de Itapoã”. As canções de Caymmi por si só permitem “ver” a Bahia, mas ganham ainda mais força na voz e no violão do criador.



#32| Luiz Melodia - Pérola Negra (1973)
O compositor surgiu em 1972, quando Gal e Bethânia gravaram respectivamente “Pérola Negra” e “Estácio, Holly Estácio”. No ano seguinte, não só apareceu um grande cantor, como foi atestada a versatilidade do autor. Pérola Negra traz um punhado de canções que vai do rock (“Pra Aquietar”) ao samba (“Estácio, Eu e Você”), esbarra no jazz (“Abundantemente Morte”) e alcança o improvável na balada épica “Magrelinha”. Mais: descobriu-se em 73 que, com todo respeito às divas baianas, o melhor intérprete para as canções de Luiz Melodia era ele próprio.



#31| Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo (1970)
Erasmo acabava de mudar de gravadora e, na casa nova, pôde definitivamente desassociar sua música do feijão-com-arroz da jovem guarda. Compôs um disco inacreditavelmente sofisticado, profundo, moderno até para os padrões de hoje. Contou com a participação dos Mutantes Sergio Dias, Dinho e Liminha, e com alguns arranjos do maestro tropicalista Rogério Duprat. O repertório trazia Caetano Veloso, Jorge Ben e Marcos Vale. A parceria com Roberto estava mais madura e rendia até a abusada “Maria Joana”, sambarock caribenho que faz referência à maconha.

Download


#30| Paulinho da Viola - A Dança Da Solidão (1972)
Paulinho da Viola é caso único no panorama da música brasileira. Exímio violonista e cavaquinista, letrista de primeira grandeza, cresceu no meio dos bambas e chorões – Pixinguinha, Jacob do Bandolim e seu próprio pai, César Faria, violonista do Época de Ouro – e sabe como ninguém fazer a fusão entre o moderno e o tradicional. Compondo choros e sambas, é sempre capaz de surpreender com criações que extrapolam gêneros. Neste álbum estão algumas jóias de seu repertório. “Dança da Solidão” faria sucesso na voz de Marisa Monte, 22 anos depois.



#29| Baden Powell, Quarteto em Cy e Vinícius de Moraes - Os Afro-Sambas (1966)
A parceria entre Baden e Vinicius é um divisor de águas na história da MPB. Baden funde os elementos do samba carioca aos do samba-de-roda baiano e mistura instrumentos da música tradicional (flauta, violão, sax, bateria e baixo) com percussão típica do candomblé (atabaque, bongô, agogô e afoxé). Este é o primeiro disco que dá aos temas africanos uma roupagem moderna – não sem a ajuda das letras do poeta erudito Vinicius de Moraes. Além do Quarteto em Cy, participam do coro várias vozes não profissionais.



#28| Roberto Carlos - Roberto Carlos (1971)
Nos anos 60 e 70, quase todas as faixas dos discos de Roberto Carlos faziam sucesso. Puxado pela inesquecível “Detalhes” (Roberto/ Erasmo), o LP de 1971 trazia, entre outras, o blues “Como Dois e Dois” (Caetano Veloso), o soul “Eu Só Tenho Um Caminho” (Getúlio Côrtes), o gospel “Todos Estão Surdos” (Roberto/Erasmo), “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos” – que o Rei e o Tremendão fizeram para Caetano, então no exílio – e as tocantes “Amada Amante” e “De Tanto Amor”, também da dupla. Roberto, na época, era puro romantismo, sem ser meloso.



#27| Ultraje a Rigor - Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985)
Depois de ganhar reconhecimento em território nacional em um compacto com “Inútil” e “Mim Quer Tocar”, o Ultraje lançou seu álbum de estréia. O título, Nós Vamos Invadir Sua Praia, mais parecia uma ameaça. Era a época de ouro do rock nacional e o álbum deu ao quarteto um metal mais nobre: o primeiro Disco de Platina nesse estilo. “Ciúme”, “Eu Me Amo”, “Rebelde Sem Causa” e outras seis de suas 11 faixas entraram nas paradas de rádio. A banda invadia e conquistava todo lugar que tocava, muitas vezes quebrando recordes de público.



#26| Gilberto Gil - Expresso 2222 (1972)
O projeto gráfico de Expresso 2222 inaugura o disco-objeto. Inicia também a fase elétrica de Gil, que mistura temas futuristas (expresso 2222 seria um disco voador?), o distante ano 2000 com Jackson do Pandeiro, forró, Banda de Pífanos de Caruaru, João do Vale e Oriente. A usina sonora moderna do artista funde elementos de brasilidade, do popular e arcaico à modernidade. É um retorno às raízes logo após o exílio londrino. Traz na bagagem a consciência de que o sonho tinha acabado e era necessário buscar uma nova forma de viver e de fazer música.

Download


#25| Tim Maia – Tim Maia (1970)
De uma hora para outra, surgiu aquele vozeirão capaz de impressionar até Elis Regina, e o funk e o soul brasileiros descobriam seu intérprete definitivo. Tim Maia assumiu o posto e consagrou-se logo neste primeiro disco homônimo. Ele era o melhor em todos os quesitos: voz, letras, arranjos, originalidade. Além de lançar baladas negras estupendas – “Eu Amo Você”, “Azul da Cor do Mar” e “Primavera” –, o álbum salpicava brasilidade na receita norte-americana como no baião-funk “Coroné Antônio Bento” ou na gospel e nordestina “Padre Cícero”.



#24| Roberto Carlos – Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967)
No ano de 1967, o Rei dominou a cena com este álbum, que sinalizava uma mudança de estilo e aderia a uma sonoridade mais funkeada, com influências da black music. Traz clássicos como “Eu Sou Terrível”, “Por Isso Corro Demais”, “Quando”, “E por Isso Estou Aqui” e “Como É Grande o Meu Amor por Você” (de toque mais romântico), em parcerias com Erasmo Carlos. De Renato Barros, destaca-se “Você Não Serve pra Mim”. Essas canções seriam trilhas sonoras do filme homônimo lançado no ano seguinte. Sucesso de vendagem e de bilheteria.



#23| Moacir Santos - Coisas (1965)
Maestro, arranjador, compositor, professor e clarinetista, o pernambucano Moacir Santos entrou para a galeria dos mestres da MPB ao lançar este seu primeiro disco. Com dez temas intitulados “Coisas” e numerados de 1 a 10, apresentava intrincadas harmonias e fusões de baião, xote e samba com jazz. O êxito do trabalho fez com que ele fosse convidado a se apresentar nos Estados Unidos, onde se fixou, só retornando ao Brasil pouco antes de morrer. O tema “Coisa n° 5”, de Moacir e Mário Telles, também ficou conhecido como “Nanã” e fez sucesso com Wilson Simonal.



#22| Os Mutantes - A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
Não é tarefa fácil competir com discos como O Jardim Elétrico ou o primeiro da banda, Os Mutantes. Porém, faixas como “Desculpe Babe” e “Ando Meio Desligado” – talvez o maior clássico da banda – pesam a favor deste A Divina Comédia. Admirado no exterior por nomes como Beck, David Byrne e Kurt Cobain, o disco tem arranjos de Rogério Duprat e marca o distanciamento dos Mutantes do movimento tropicalista, aproximando-se mais do rock e da psicodelia. Você nunca mais verá seu refrigerador da mesma maneira.



#21| Legião Urbana - Dois (1986)
O segundo álbum do então quarteto brasiliense não é tão imediato em sua crítica social quanto seu trabalho de estreia, mas nem por isso é menos incisivo. Segundo Renato Russo, falar sobre o ponto em comum entre as pessoas – o amor – era o foco do disco. Não por acaso, Dois é o mais bem-sucedido comercialmente da carreira da banda e criou tamanha cumplicidade com o público que deu a partida no que viria a ser a verdadeira legião urbana: um enorme exército de fãs. Faixas como “Quase sem Querer” e “Tempo Perdido” se tornariam clássicos.



#20| Gal Costa - Fa-Tal - Gal A Todo Vapor (1971)
A época não era das mais tranqüilas. Todos os amigos tinham ido embora, exilados pela ditadura que avassalava corações e mentes. Gal ficou só, como representante da “resistência”, e se transformou na musa do desbunde tropical, através do show Gal a Todo Vapor. Dirigido por Wally Salomão, o espetáculo foi registrado no álbum duplo Fa-Tal. Acompanhada por uma banda afinada (Lanny Gordin, Novelli, Jorginho e Baixinho), o show/disco revelou Luiz Melodia (“Pérola Negra”) e Jards Macalé (“Vapor Barato”).



#19| Titãs - Cabeça Dinossauro (1986)
Uma banda dilacerada pela incompreensão de seu disco anterior (Televisão, 1985) e também pela prisão de dois de seus integrantes: foi nessas circunstâncias que o Titãs expeliu o quase punk Cabeça Dinossaurode suas profundezas psicológicas. A reação natural para as turbulências foram faixas agressivas (“Polícia”, “Igreja” e “Bichos Escrotos” – com palavrão censurado), contestadoras (“Estado Violência” e “Porrada”) e irônicas (“Homem Primata”). Outras como “AA UU” e “Família” garantiriam ao grupo um disco de platina (250 mil cópias).



#18| Chico Science & Nação Zumbi - Afrociberdelia (1996)
Imagine que chatice seriam os anos 90 se não houvesse Chico Science & Nação Zumbi. O que seria de nós sem o hino “Manguetown” ou a redescoberta de “Maracatu Atômico”? Preferido de seus integrantes, este segundo disco tem produção de BiD – mais azeitado com a banda do que Liminha, o produtor de Da Lama ao Caos, de dois anos antes. Além dos referidos clássicos, faixas como “Cidadão do Mundo”, “Etnia” e “Macô” mostram a alquimia afro-brasuca- cibernética em ebulição sonora de absurda conexão com o tempo em que vivíamos.



#17| Tim Maia - Racional Vol. 1 (1975)
Há desilusões que vêm para o bem. Uma das maiores na vida de Tim Maia lhe rendeu seu melhor disco, mesmo que depois de lançado ele tenha resolvido tirar todas as cópias de circulação. Para divulgar a ideologia da Cultura Racional, Tim, que já havia jogado todos os móveis de casa fora (além de outras sandices), gravou este álbum cheio de funk e soul. Por causa da tal seita, ele tinha deixado de fumar e beber. Sua voz não poderia estar melhor. Após um segundo volume, Tim se desencantou e mandou o Universo em Desencanto às favas. O registro ficou.



#16| Rita Lee & Tutti Frutti - Fruto Proibido (1975)
Um belo dia, Rita Lee resolveu mudar: jogou pela janela as influências psicodélico-progressivas infiltradas em seus últimos tempos de Mutantes, se afastou da estética glitter de sua estréia solo (Atrás do Porto Tem uma Cidade, de 1974) e, ao lado da banda Tutti-Frutti, produziu o primeiro álbum do rock brasileiro que não soava versão da matriz inglesa. O autor Paulo Coelho, parceiro de Raul Seixas, colaborou em duas letras: “Cartão Postal” e “Esse Tal de Roque Enrow”. Mas “Ovelha Negra”, o principal sucesso do álbum, foi escrita pela própria Rita.



#15| Jorge Ben - Samba Esquema Novo (1963)
Neste seu primeiro disco, Jorge Ben definia os rumos musicais que seguiria, colocando lado a lado elementos do samba de raiz com a batida do jazz e fundamentos da soul music, resultando num suingue irresistível que fugia da levada tradicional e ia além dos ditames da bossa nova. Acompanhando-se ao violão – tempos depois passaria para a guitarra –, Jorge, então com 20 anos, produzia batida própria e inimitável, e lançava temas que se tornariam clássicos como “Mas, Que Nada”, “Balança Pema”, “Por Causa de Você, Menina” e “Chove Chuva”.



#14| Racionais MC's - Sobrevivendo ao Inferno (1997)
Lançado dez anos depois que Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e KL Jay resolveram virar os Racionais MCs, Sobrevivendo no Inferno colocou o rap no topo das paradas, vendendo mais de meio milhão de cópias. A música, com sua bateria básica, alguma melodia nos teclados e arranjos simples, vira adereço em relação ao impacto das letras. Racismo, miséria e desigualdade social – temas cutucados nos discos anteriores – são aqui expostos como uma grande ferida aberta, vide “Diário de um Detento”, inspirada na grande chacina do Carandiru.



#13| Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama Ao Caos (1994)
O ano de 1994 foi de intensa renovação para a música brasileira, muito por conta do lançamento deste Da Lama ao Caos. Reza a lenda que a gravadora contratou Chico Science & Nação Zumbi no escuro, pensando ter encontrado, em Recife, uma resposta para o fenômeno de vendas É o Tchan!. Acabou colocando no mapa não apenas uma das mais criativas bandas do país, mas boa parte da cena de Pernambuco, o Mangue Beat e seu manifesto. A mistura de maracatu, rock, hip-hop, dub e eletrônico era tão inovadora e abrangente que repercute até hoje.



#12| Raul Seixas - Krig-ha, Bandolo! (1973)
As bases da Sociedade Alternativa estavam montadas e a primeira trilha sonora dessa utopia vista com maus olhos pela ditadura militar era Krig- Ha, Bandolo! O álbum marca o início de uma parceria e grande amizade com Paulo Coelho. Juntos compuseram para este disco “As Minas do Rei Salomão” e “Al Capone”, entre outras. Mas são apenas de Seixas os clássicos “Metamorfose Ambulante” e “Ouro de Tolo”. Valeu-lhe muito sucesso e longas férias nos EUA, “cortesia” do governo do presidente Ernesto Geisel.



#11| Elis Regina e Tom Jobim -  Elis & Tom (1974)
Encontro da maior cantora com o compositor mais importante do Brasil. Tanto Elis quanto seu marido, o pianista e arranjador César Camargo Mariano, sonhavam em gravar um disco com o maestro e a hora era aquela.O casal mais o trio titular de Elis à época – o guitarrista Helio Delmiro, o baixista Luizão Maia e o baterista Paulinho Braga – embarcaram para Los Angeles, morada de Tom naquele período, e fizeram história. Depois de Elis & Tom, gravar qualquer uma das faixas daquele repertório passou a ser um ato de ousadia.



#10| Caetano Veloso  - Transa (1972)
Gravado em Londres em 1971 e lançado por aqui em 1972, Transa foi o segundo e último disco de Caetano Veloso produzido durante os quase três anos em que esteve exilado na capital inglesa – e o primeiro a ser lançado no Brasil após o seu retorno para casa. Se existe algo de bom a ser extraído de um exílio involuntário, o encontro de um tropicalista com uma cultura estrangeira, in loco, é um bom exemplo. Intercalando letras em inglês (cinco no total) com versos do poeta Gregorio de Mattos (“Triste Bahia") e um samba de Monsueto de Arnaldo Passos (“Mora na Filosofia"), Transa é autobiográfico até o osso. Fala sobre a sensação de estar sozinho e longe de casa (“You Don't Know Me"), e de como incorporar o choque cultural com o mínimo de sofrimento, como a citação ao reggae na Portobello Road, em “Nine Out of Ten", que Caetano já afirmou ser a primeira gravação brasileira a citar os compassos do ritmo caribenho. Talvez pela distância, talvez pela falta de olhares vigilantes, Caetano nunca tenha sido tão Caetano.



#9| Os Mutantes - Os Mutantes (1968)
A influência dos mutantes hoje é enorme, aqui e lá fora, tendo artistas como David Byrne e Björk entre seus fãs. Os Mutantes, o primeiro álbum da banda, já havia conquistado o 12° lugar em uma lista dos “50 Discos Mais Experimentais de Todos os Tempos" – duas posições acima de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e bem à frente de The Piper at the Gates of Dawn, do Pink Floyd. Mais do que os álbuns dos outros artistas do movimento, Os Mutantes segue os preceitos do Tropicalismo à risca, como um segundo volume do manifesto sonoro Tropicália ou Panis et Circensis. “Baby" ganha aqui uma leitura oposta à bossa nova, imbuída em distorções de guitarra e teclados. O maestro Rogério Duprat ajudou o trio nos arranjos e nada faltou: desde a gravação do som ambiente (perfeito na abertura do sambão torto de “Adeus Maria Fulô") até a manipulação de fitas magnéticas (uma herança da música concreta) em um copia-cola manual. “Panis et Circensis", que abre o disco, vem com tudo isso. É um perfeito exercício de criatividade musical.



#8| Cartola - Cartola II (1976)
Cartola foi pedreiro, lavador de carro, contínuo e o que mais lhe rendesse uns trocados, viu e cantou de tudo. Só não teve tempo de ver que este seu segundo disco mudaria a cabeça de quem o ouvisse, pelas décadas seguintes. Entre sam bas antigos e então inéditos, neste álbum, Cartola passeia entre a alegria melancólica e a pura dor, em poemas musicais que parecem ter sido lapidados da maneira mais rústica, autêntica e sofrida possível. Não há otimismo desvairado para alguém que só gravou seu primeiro disco aos 65, dois anos antes. Fosse para selecionar apenas os clássicos, basta dizer que estão ali “As Rosas Não Falam", “O Mundo É um Moinho" e “Preciso Me Encontrar", de Candeia, em versão definitiva. Esta última, aliás, de tempos em tempos é redescoberta por uma geração inteira, do cineasta Walter Salles, que a colocou na trilha do filme Central do Brasil (1998), ao DJ Guab (atração do Tim Festival deste ano), que a apresentou remixada aos indies das descoladas danceterias paulistanas.



#7| Clube da Esquina (1972)
Inaugurando uma nova sonoridade na música brasileira, um híbrido de música pop, Beatles e toadas, este álbum duplo é o marco definitivo de um movimento que começou a ser gerado no meio da década de 1960, quando o carioca Milton se mudou para Três Pontas e de lá alcançou Belo Horizonte, a fim de se preparar para o vestibular. Na capital mineira, ele passou a tocar num grupo de bossa nova, o Evolusamba, do qual participava o mais velho dos 12 irmãos da família Borges, Marilton, que o apresentou aos caçulas Márcio e Lô. E foi com essa dupla que Milton se enturmou, passando a compor em parceria. Márcio foi o primeiro letrista de canções de Milton desse período. Lô era mais interessado em estudar música (seu professor de harmonia era Toninho Horta) e passava horas ouvindo Beatles com outro amigo que viria a se juntar ao grupo: Beto Guedes. Quatro, cinco garotos juntos, violões, composições: nascia o lendário corner club, que nada mais era que um cruzamento das ruas Divinópolis com Paraisópolis, onde se encontravam para jogar conversa fora. Mas isso já é história. Em 1972, Milton, com a carreira em ascensão – já tinha participado de festivais no eixo Rio–São Paulo e gravado três álbuns –, convidou ninguém menos que Lô Borges para juntos dividirem o álbum duplo que seria intitulado Clube da Esquina. Na capa foi estampada a foto de dois garotos pobres, um preto e um branco (clara metáfora Milton/Lô). O conteúdo sonoro tinha bossa nova, canções com sonoridade beatle, toadas, rock progressivo, choro e jazz, numa miscelânea original e inventiva. O lançamento tornou-se um marco da produção musical brasileira, com criações fora dos moldes tradicionais da prática dominante. Ao mesmo tempo, assumia todo tipo de influência, com harmonias arrojadas, mas diferentes do padrão corrente da MPB. Além de inovar na sonoridade, as letras abordavam temas não muito usuais e faziam uma aproximação com a realidade sul-americana, como a imaginária cidade em “San Vicente". A propósito, a canção “Nada Será como Antes" era premonitória: depois disso, a MPB não seria mais a mesma.



#6| Jorge Ben Jor - A Tábua de Esmeralda (1972)
Cada acorde reforça a certeza de que nenhum outro violão, em nenhum outro disco, soa nem soará daquele jeito. Jorge Ben perseguia uma harmonização específica, que evocasse as regras da alquimia – crença milenar que inspirou o músico a conceber A Tábua de Esmeralda, em 1972. Como chegou lá ainda é um enigma, mas o fato é que o músico desenvolveu uma afinação própria para o instrumento e inventou o seu jeito de tocá-lo. Sua batida nas seis cordas – revolucionária desde seu primeiro disco, Samba Esquema Novo (1963) – encontrava ali um novo horizonte harmônico, paisagem perfeita para a aura mítica que envolve o disco e guia o arranjo de faixas como “Errare Humanum Est" e “Hermes Trismegistro e Sua Celeste Tábua de Esmeralda". A interpretação e as melodias também inauguravam uma nova cadência – descompromissada, improvisada – e nos ofereciam letras de um delírio poético que beirava o surrealismo. Antes de seu lançamento, no entanto, a idéia de um disco inteiro sobre alquimia era vista como loucura pelos executivos da Phonogran. Foi preciso a ordem do gerente da gravadora, André Midani, para que a vontade de Jorge fosse atendida. Pois a fé não costuma mesmo falhar e o álbum transborda inspiração. A viagem começa com "Os Alquimistas Estão Chegando" e já envolve o ouvinte em uma atmosfera de psicodelia, com versos que evocam a narrativa de uma fábula. Em “Cinco Minutos", violão e vocal agonizam entrelaçados, envoltos por um arranjo de cordas épico, e traduzem o desespero da letra sobre um desencontro amoroso. Da arqueologia do absurdo de “O Homem da Gravata Florida" à ode ao alto-astral de “Eu Vou Torcer", Jorge evoca a tradição gospel (“Brother"), exalta a negritude (“Zumbi") e oferece sua leitura particular do universo feminino (“Menina Mulher da Pele Preta" e “Magnólia") – e acerta sempre. A analogia inevitável: em seu tributo à alquimia, o próprio Ben encontrou a receita de um elixir de efeitos inesgotáveis para o ouvinte se esbaldar em doses generosas.



#5| Secos & Molhados - Secos & Molhados (1973)
Odair José conta com orgulho seu embate com um general, em 1973, na tentativa de safar sua “Pare de Tomar a Pílula" da censura. “O senhor permite o Ney Matogrosso e os Secos & Molhados fazerem uma proposta de gay num show no Maracanãzinho e não permite que eu faça uma proposta de homem?! O senhor é gay? O Exército é gay?", teria indagado, segundo relatou no livro Eu Não Sou Cachorro, Não(2002), de Paulo Cesar de Araújo. Era uma disputa entre semelhantes. No Brasil de 73, quase ninguém fez mais sucesso que Odair e os S&M. Em comum, ambos afrontavam os costumes de uma ditadura brava, amofinando-a no campo do comportamento, da política do corpo. Odair testava letras simples que debatiam sexo, amor livre e a estrutura de classes sociais no país. Os S&M de Ney, João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias sugavam a poesia de Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, mas falavam pelo corpo, por visual andrógino e (homo) sexualidade explícita – era o glam rock à brasileira. Rotulado de “cafona", Odair era rejeitado por nove em cada dez estrelas da MPB, uma confraria que já iniciava a trágica rota rumo a um elitismo atroz. Os S&M fundavam o “roque" dos anos 70, com toques hipnóticos de rock progressivo, mas incorporando a sigla MPB mais que a negando. Talvez Odair se sentisse enciumado do colossal poder transgressor (e comunicativo) do denso LP de estréia dos S&M, com “Sangue Latino", “O Vira" e “Assim Assado". Talvez o efêmero grupo prog-MPB também se ressentisse do imenso fogo comunicativo (e transgressor) do “cantor das empregadas" em “Deixe Essa Vergonha de Lado". Voltando-se uns contra os outros, se neutralizavam e ajudavam o opressor. Mas a massa aprovava igualmente as transgressões dos “cafonas" e dos “andróginos", no apogeu do terror & tortura. A marca S&M era em si uma revolução, confirmada 30 anos depois pelos milhões que marcham em paradas pacíficas de diversidade sexual. Quanto à rivalidade entre iguais de 1973, não se sabe que curso tomou. Fato é que, em 77, Odair gravou um controverso disco gay. Em 76, Ney lançara a romântica “Cante uma Canção de Amor", co-escrita por Odair José.



#4| João Gilberto - Chega de Saudade (1959)
Não é exagero comparar João Gilberto aos Beatles. Ambos os artistas inventaram o universo musical que habitamos hoje, criando amálgamas sonoros que moldaram os ouvidos da segunda metade do século 20. De Liverpool, os quatro heróis britânicos ruminaram a música de rádio dos anos 50 (e não apenas o rock, mas também soul, standards, doo-wop, rockabilly, country, surf music, folk e R&B), devolvendo-a ao resto do mundo como uma sonoridade sólida, coesa e autoral – que mais tarde o mundo chamaria apenas de “rock". Sua sacada: reduzir todo o instrumental a duas guitarras, baixo e bateria e mesmo assim manter o som cheio e vibrante. De Juazeiro, no norte da Bahia, nosso herói mascou o rádio dos anos 30 e 40 (e não apenas o samba, mas também jazz, músicas tradicionais, conjuntos vocais, samba-canção, música sertaneja, choro, música de fossa e o batuque), traduzindo-o para o resto do mundo como uma sonoridade igualmente sólida, coesa e autoral – que mais tarde chamaríamos apenas de “bossa nova". Sua grande sacada: reduzir todo o instrumental apenas para seu violão. Esse é um caso à parte. Enigmático, cheio de acordes dissonantes e inusitados, seu violão reinventava a tradição rítmica brasileira ao atrelá-la à harmonia moderna para sempre. Por cima, a voz. Que voz. Nem rompantes de divas de jazz, lamentos dramáticos do samba-canção ou cantos bon vivant dos clones de Sinatra. João canta com a intensidade de quem conversa, calmo e sereno, deixando o som vibrar o mínimo possível. Contou com Jobim na coordenação desse seu primeiro disco quando posicionou estrategicamente as coordenadas de seu novo mapa: seis partes de novos compositores, duas de Ary Barroso e uma de Dorival Caymmi, além de um tema quase religioso e duas quase instrumentais. Os Beatles injetavam juventude, velocidade e brilho a uma cultura popular que descobria os poderes da comunicação global. João veio logo depois, pedindo calma, mas não como um bedel. Com seu violão, plantou a semente de uma árvore de silêncio, que se infiltrou no imaginário mundial e acompanha a genealogia da música do fim do século. E se hoje não estamos berrando uns com os outros, culpe João.



#3| Chico Buarque - Construção (1971)
Quinto disco de chico Buarque de Hollanda, Construção foi lançado num dos períodos mais sombrios da ditadura militar. O país vivia a falsa euforia (plantada pelo governo do general Médici) da conquista do tricampeonato mundial de futebol no México, enquanto centenas de pessoas eram torturadas nos porões pelo chamado “poder constituído". Justamente por esses fatos, o álbum marcou a mudança de postura do cantor e compositor diante de sua obra e, pode-se dizer, diante da vida. O “bom moço" de olhos verdes, já com passado de canções veladamente contundentes como “Pedro Pedreiro", agora se dispunha a pôr a boca no mundo. Mesmo fazendo uso de metáforas para driblar a temida Censura Federal, Chico ousava mais do que em trabalhos anteriores. Na desafiadora “Deus lhe Pague", ironizava a servidão ao regime em versos como “Por esse pão pra comer/por esse chão pra dormir/…/Deus lhe Pague". No dolorido samba “Construção", relatava a história do homem que, extenuado pela miséria que tinha de enfrentar, trabalhava até a morte. No “Samba de Orly", parceria com Toquinho e Vinícius de Moraes, falava quase abertamente da questão do exílio. “Quase", pois a canção teve parte da letra censurada, o que obrigou os autores a fazer alterações. No samba “Cordão", Chico aparecia mais desafiador ao dizer que se manifestaria livremente enquanto pudesse cantar ou sorrir. Em “Acalanto", mostrava desespero em versos como “dorme minha pequena/ não vale a pena despertar" e, mais adiante, abordava a esperança (“eu vou sair por aí afora/ atrás da autora tão serena"). Por outro lado, trazia lirismo exacerbado em “Valsinha", dele e Vinícius, ou lidava com a dor do amor em “Olha Maria", com Vinícius e Tom Jobim. Chico Buarque lançava, ainda, mão do recurso da versão ao retratar a vida de Jesus Cristo transposta para o universo contemporâneo na magnífica “Minha História", adaptação da autobiográfica “Gesubambino",de Lucio Dalla. Discurso direto – na medida do possível –, melodias magníficas. Peso e responsabilidade num dos discos mais importantes da música popular do Brasil.



#2| Tropicalia ou Panis et Circenses (1968)
No dia 21 de outubro de 1967, na finalíssima do III Festival de Música Popular da TV Record, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram introduzidos como “artistas que estão buscando uma linguagem universal". No intervalo, Caetano fala de sua opção estética: “Estou interessado em tudo o que seja pop ou popular, aquela coisa de massa, como história em quadrinhos...". Nenhum dos dois conquistou o primeiro lugar, mas, naquele dia, o Tropicalismo foi o campeão. No Brasil da metade dos anos 60, havia uma dicotomia: ou você ficava com os “alienados" da Jovem Guarda com suas guitarras elétricas ou fechava com os “autênticos" da MPB. Caetano e Gil gostavam disto e muito mais. Poesia concreta, cinema novo, programas de TV, imprensa underground, antropofagia cultural, tudo era válido. Em maio de 1968, começaram as gravações do tal disco-manifesto. Entrou quem se identificava: Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Os Mutantes, os poetas Capinan e Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat – que tomou conta dos arranjos, providenciando instrumentações inusitadas e colagens sonoras. Tropicália ou Panis et Circensestem 12 faixas, disparos certeiros em tudo o que vinha antes, mas que também apontavam para o balaio de gatos que iria tomar conta do Brasil. O manifesto abre com a sintomática “Miserere Nóbis", de Gil e Capinan. Caetano revive “Coração Materno", de Vicente Celestino, até então considerada uma pérola da cafonice – aquilo era sério ou não? Os Mutantes se destacam em “Panis et Circenses", com sua levada barroca, ruídos de gente jantando e final psicodélico. Nara Leão, musa da bossa nova, confunde tudo com o bolero “Lindonéia". A celebrada “Bat Macumba", de Caetano e Gil, escancara o lado concretista. Com citação de Roberto Carlos, o grande hit foi “Baby", cantada por Gal Costa. A capa também causou impacto, mostrando os participantes como uma família nada convencional. A revolução cultural estava formatada no caótico Brasil do recém-decretado AI-5.



#1| Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)
Não é de se espantar que sejam os Novos Baianos os grandes vencedores de uma lista feita em 2007 sobre os maiores álbuns da história da música brasileira. Longe de serem definitivas, eleições como esta são muito mais eficientes como espelho do tempo em que foram feitas do que como avaliação imutável da importância artística das obras em questão. E, é fato, não há nada mais sintonizado com o modus operandi da geração anos 2000 (ou, ao menos, com o método de criação da fatia mais interessante dela) do que a filosofia coletiva, hippie e sem hierarquias proposta desde sempre pelos Novos Baianos. É assim que trabalham hoje, por exemplo, a Orquestra Imperial, o +2, o Instituto, os Tribalistas.
 
Também tem relação direta com o grupo de Moraes, Baby, Pepeu, Boca, Galvão, Dadi, Jorginho, Baixinho e Bolacha o retorno triunfal do samba ao centro do interesse estético de quase todas as cantoras surgidas na última década: Vanessa da Mata, Céu, Roberta Sá, Mariana Aydar, muitas. Todas elas chegaram à cena musical com o terreno – que outrora era fértil apenas para o rock – já preparado para o samba. E muito disso se deve, sem sombra de dúvida, à releitura que vem sendo feita por Marisa Monte, cantora de entrada irrestrita na juventude de classe média, desde pelo menos 1996 (“A Menina Dança", faixa de Acabou Chorare, foi regravada pela cantora carioca no disco Barulhinho Bom, daquele ano).

Obra-prima dos Novos Baianos Baianos, Acabou Chorare nasceu do choque entre o grupo e João Gilberto (engana-se quem imagina que a influência musical foi unilateral. Vale ouvir João Gilberto, o 47º colocado desta mesma lista, e perceber imediatamente que se trata do outro lado de uma mesma moeda). Depois de um primeiro disco semitropicalista, um tanto psicodélico e essencialmente roqueiro gravado em São Paulo (É Ferro na Boneca, de 1970), a trupe se mudou de mala e cuia para o Rio de Janeiro e por lá se instalou. Luiz Galvão, letrista dos Novos Baianos, conhecia o pai da bossa nova desde a adolescência em Juazeiro e retomou o contato assim que pisou na Cidade Maravilhosa. Por algum motivo inexplicável, João se identificou com a turma de hippies e logo começou a freqüentar o, digamos, “alojamento" onde eles moravam. De cara, apresentou ao grupo um samba que, mal sabiam eles, se tornaria a peça-chave da transformação sonora que viria em 1972.

“Brasil Pandeiro" foi composto nos anos 40 por Assis Valente especialmente para Carmen Miranda cantar, e fez quase tanto sucesso na época quanto faria trinta e poucos anos depois. A indicação do samba antigo vinha com um recado mais profundo: “Voltem-se para dentro de vocês mesmos", disse João Gilberto ao grupo. Sob essa brutal influência, Acabou Chorare foi composto e gravado. A faixa-título do disco, aliás, teve como fonte inspiradora uma história que João contara a Galvão pelo telefone e que depois ficaria famosa. Quando ainda era bem pequena, sua filha, Bebel, costumava falar um idioma híbrido, misturando o português de sua terra natal com o espanhol que aprendera durante o período em que morou no México com os pais. Única filha, ela estava sempre coberta de todos os cuidados possíveis. Num escorregão que levou certa vez, quando viu que toda a família vinha para cima dela ver se ela havia se machucado, a menina disparou: “Acabou chorare!". A canção ficou entre as mais tocadas nas rádios de todo o Brasil por mais de 30 semanas consecutivas. Mas o maior sucesso do disco foi mesmo “Preta Pretinha", música de Moraes Moreira feita sobre os versos que Galvão havia escrito para uma menina de Niterói que o havia deixado na mão. De resto, qualquer mérito que não tenha sido dado à excelência de Acabou Chorare quando o disco foi lançado acabaria sendo devidamente reconsiderado com o correr do tempo. Aos 35 anos, faixas como “Mistério do Planeta", “A Menina Dança", “Tinindo Trincando" e “Besta É Tu" estão em seu melhor momento. E o fato de elas terem ajudado Acabou Chorare a conquistar pela primeira vez o topo de uma lista dos melhores discos brasileiros de todos os tempos só serve para confirmar isso.

 
 
Mostre para seus amigos! :)


18 comentários:

  1. Brigadaço Cleison pelo presentão,música brasileira da melhor qualidade.Com certeza vai fazer a alegria de muita gente.Um feliz natal para você,e um ano novo cheio de sucesso,valeu camarada.

    ResponderExcluir
  2. é meu amigo a humanidoida info e desinfo salve-se quem puder-quiser-souber taí o nosso mundo tem lugar pra tudo quem suportar as agrúrias e amarguras mesmo amando a vida, viverá verá mais..bye bye so long até mais ver e escrever, raul zim di maio anônimo anonimato, grato sim ou não ...

    ResponderExcluir
  3. É logico que o babaca ou babacas que fizeram essa lista é fã do tal Chico Science & Nação Zumbi, tal de racionais e outros do mesmo naipe. Esse blog é ótimo, é massa e acho que nem devia mostrar uma idiotice dessa. Listagem totalmente sem noção, tentando ser moderno, passando por cima dos verdadeiros clássicos. Imagino se fosse uma lista internacional com os bundões que fizeram essa relação, em que lugar os Beatles ficariam? Música importante e de qualidade, pra OUVIR são os clássicos, Chico, Caetano, Gil, João, Jobim, Vinicius, Novos baianos, Secos e molhados, Sá Rodrix e Guarabira, Mutantes, Roberto, Erasmo e outros que fizeram, fazem e farão sempre a diferença. Os outros tem que entrar nos 1000 melhores discos, lá atrás.

    ResponderExcluir
  4. Muito, muito, muito bom !!!!!!!!! Parabéns..

    ResponderExcluir
  5. Muito obrigado dende a Espanha onde é imposibel acceder a estas joias musicáis.

    ResponderExcluir
  6. Inacreditável, essa lista. Acho que os caras nunca ouviram outros discos, ou foram influenciados por... sei lá... Nada do Djavan, Zé Ramalho, Osvaldo Montenegro, Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Martinho da Vila... só lembrando alguns!

    ResponderExcluir
  7. Sem fanatismo, mas não ter "A REVOLTA DOS DÂNDIS" da banda Engenheiros Do Hawaii é sacanagem, um dos melhores discos nacionais.

    ResponderExcluir
  8. LISTA LIXO e completamente PARCIAL de acordo com o ouvido e conhecimento limitado dos autores. Além dos já citados esquecidos uma lista dessas sem Belchior ou Luiz Gonzaga é um desrespeito à música brasileira.

    ResponderExcluir
  9. MUITO BOM, DE VEZ EM TEMPOS PODERIAM REFAZER ESSA LISTA NÉ MESMO? TIPO DE DEZ EM DEZ ANOS UMA NOVA, ESSE ANO SERIA A SEGUNDA !

    ResponderExcluir
  10. Baixei todos os disco, alguns eu já tinha. Muito obrigado. O Blog é sensacional. Continue!

    ResponderExcluir
  11. acho a lista bem justa, mas deixar 'Alucinação' do Belchior de fora é demais... Mas enfim, nunca vai agradar a todos mesmo, e valeus pelos links pra baixar!

    ResponderExcluir
  12. Só os fanboys vanguardistas fizeram essa lista, com muitos artistas repetidos com albuns médios no meio do ranking mas colocam pelo renome faltam varios albuns dos anos 90 e começo de 2000 pra compor esse ranking, mas musica é questão de gosto mesmo

    ResponderExcluir
  13. Muito foda, valeu! Teria como disponibilizar em torrent?

    ResponderExcluir
  14. Achei estranho que não teve Engenheiros...

    ResponderExcluir
  15. Mano véi, essa lista comprova que a Rolling Stone não manja nada de música brasileira.

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.