Augustine Azul - EP (2015)


É raro, mas pode acontecer. Você alguma vez já pegou um disco (seja ele no formato físico ou digital) e ficou encarando a capa? Não sei se existe um pensamento ''exato'' por trás desse ato, mas quando faço isso, geralmente penso: será que o conteúdo refletirá o que vejo na arte?

Por vezes é uma viagem sem volta. Como poderia saber que um prisma refletiria tanto Prog na forma de Pink Floyd? Jamais imaginaria que o Jeff Beck arrebataria meus ouvidos com um som tão futurista, ostentando uma maçã na capa de seu Jeff Beck Group, ou que o Led Zeppelin, fosse derreter minha mente da mesma forma que aconteceu com a carcaça do dirigível em chamas do Led I.

Não é um sistema à prova de falhas, muitas vezes as artes dos discos são trabalhos paralelos que tentam unir teias por conceitos diferentes. É uma maneira que propõe um novo ângulo de observação artístico para linkar um trabalho. A ideia é criar um signo, algo que você olhe e imediatamente pense: essa mina de Black Power é do ''Maggot Brain''.

Volto a repetir o mantra: é complicado achar um todo bem sincronizado, mas quando você acha e aprecia as notas, o baque é ainda maior. Você escuta o disco e frita de uma maneira quase conceitual. É como se você se identificasse com aquilo, da mesma maneira que o músico que está nos créditos o fez. É algo limpo e que não tenta se esconder, o groove é reto.

E se tem um registro que vai lhe atingir como um porrete, desde a capa e desnorteará sua bússola psicológica, meu amigo, esse trampo será o EP dos paraibanos do Augustine Azul. O autointitulado lançado (virtualmente) no dia 01 de julho de 2015 é extremamente fiel ao que é relatado na capa e, digo mais, se eu deixei de falar algo, desculpem-me, desde que saquei essa jam, possuo dois martelos cravados no meu cérebro. A fritação Prog-instrumental do trio é violenta.

Se teve um registro nacional que me pegou pelo pé foi esse aqui. A pegada do trio é assustadora. A bateria pesa, mas com técnica, bombeia o sangue da síncope para todos os instrumentos e mostra uma versatilidade notável, deixando claro desde a base, que o que temos aqui é uma cozinha bastante inventiva, livre e casca grossa.

O baixo de Jonathan Beltrão não caminha com a bateria de Edgard Moreira o tempo todo, ele desafia a guitarra, joga novos graves, deixa tudo mais torto e adiciona um groove bastante ácido em meio à tantas influências diversas. Insights que surgem desde o Stoner, passando pela psicodelia e um groove Funky que encerra o EP com ''Aquele Arregaço'', literalmente.

Na guitarra, João Yor fecha o pack, servindo como o norte de tudo que acontece aqui. Só que cuidado com essa frase, durante os quase 25 minutos que as notas surgem como um choque de taser, todos os instrumentos disputam espaço de maneira contundente.

Só que a fagulha que fará deste som, algo único nos seus fones, é justamente a criatividade de cada música. A diversidade de influências e a técnica crua de cada um dos envolvidos, que com um conceito muito bem definido, impressionam pela exatidão das timbragens.

Falei tanto das artes antes do texto por que você vai olhar pra essa daqui pra frente e lembrar: vish. É um trabalho marcante, seco e que define a força de um grupo que conseguiu achar um conceito e extendê-lo de forma rica sem se perder.

Aqui tem muito Blues, aquelas Hardeiras obscuras, música brasileira, ácido e no fim das contas o estrago chega com a força de um ''Mesclado'' mesmo. A química da banda é fervorosa, o baque é ''3>1'' na entrada, a pancadaria é vertiginosa e no fim parece que você vai cair, mas quando tudo ficar turvo, só verás um ''Teto Preto'' batizando jams ao vivo (a especialidade deste trio), como se a vida fosse uma eterna brisa num festival qualquer em 1900 e ''Setenta e Quatro''.

A cena underground brasileira vai muito bem (obrigado) e são grupos como esse, que além de evidenciarem o tato de nossos músicos e o alto nível das gravações made in Brazil (sem trocadilho), ressaltam ainda mais o puro néctar da música instrumental, nos provando por A + B, como é possível falar muito, sem precisar necessariamente cantar algo concreto.

Uma bomba de estilhaços com um laço Prog para amarrar a ideia, esse é o Augustine Azul e seu EP. Depois da primeira audição parece que você saiu correndo e atravessou uma porta de vidro temperado. Que muqueta, é tão bom que até o nome do ''Nando Reis'' passa batido! (Texto: Macrocefalia Musical).



Discografia
 
Senha do arquivo: brrock


EP 2015 (2015)
01. 3>1
02. Nariz de Ferro
03. Tamanco
04. Setenta e Quatro
05. Mesclado
06. Teto Preto
07. Nando Reis/Aquele Regaço (ao vivo)





  

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