Metá Metá - Discografia


Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França reinventaram a herança africana com o primeiro registro em estúdio do Metá Metá. Autointitulado, o álbum amarra de forma experimental todas as experiências que há anos delimitaram o universo individual de cada membro. Minimalista na forma como parecia brincar com as vozes, acordes e encaixes ruidosos de saxofone, o registro serviu para apresentar a proposta por vezes incompreensível do trio, que se arremessa em direções opostas faixa após faixa, estabelecendo curiosos encontros entre a extensão irregular e nunca óbvia de cada nova canção. A medida não somente apresentou a arquitetura que envolvia o trabalho da trinca, como hoje parece revelar de forma decisiva o que a banda entrega com o segundo e mais novo registro em estúdio.
 
Tão incerto e curioso quanto o registro que o antecede, MetaL MetaL (2012, Independente) assume uma particularidade densa em oposição ao primeiro trabalho do grupo, fundindo como metal derretido cada característica do trio de forma sóbria e ainda mais instigante. Grandioso na maneira como o instrumental percussivo, baixo ou mesmo os já tradicionais elementos do grupo são acrescidos, o álbum encontra na medida entre o samba, rock, jazz, noise e punk (!) uma medida antes impossível de ser prevista ou sequer imaginada dentro do recheio tribal que ecoava há menos de um ano. Como o título já aponta, o novo álbum da tríade paulistana parece pronto para agredir ou talvez soterrar sob um composto sujo e acinzentado os tímpanos do espectador.
 
Posicionando Marçal em um segundo plano, quanto mais adentramos o interior do registro, mais a instrumentação toma o controle do álbum, quebrando de forma consciente com boa parte do que fora tramado no decorrer do primeiro disco. Dentro desse cenário de valorização do instrumental, o entrelace constante entre as guitarras, a percussão quente e o saxofone desgovernado de França aproximam o trio de muito do que fora concebido por Miles Davis ao longo de toda a década de 1970. Tanto Man Feriman quanto o primeiro single, Oya, se tornam íntimas do que marca a construção de clássicos como Bitches Brew (1970) e Live-Evil (1971), principalmente pela maneira como o ritmo surge quebrado e intencionalmente sujo na formação de ambos.
 
Tão logo inicia ao som desconcertante de Exu, fica clara a proposta da banda com o lançamento do novo disco. A cada nova música, o registro soa dono de um som que se prontifica raivoso, esquivo e intenso, como se o rock fosse devorado por alguma entidade africana e depois vomitado, coberto por uma massa de novas experiências e sensações. O resultado floresce o aparecimento de vozes esquizofrênicas que se esbarram em sons opacos, rompendo de maneira decisiva com as amarras líricas e o encaixe quase delicado que tanto decidiu Metá Metáe músicas comoObatelá. Mesmo os vocais de Marçal (outrora melódicos e límpidos) parecem poluídos pelo clima sombrio da obra, agravando a proposta complexa do registro.
 
De todos os elementos que aproximam o atual projeto do primeiro álbum (e mais especificamente as faixas concentradas na segunda etapa do lançamento), provavelmente a religiosidade seja o principal e mais decidido deles. Expressa para além do título das composições, cada verso concebido ao longo do registro entrelaça santos, demônios, espíritos e manifestações ocultas de forma a transformar o álbum em um concentrado de preces e canções de proteção – algumas até de maldição. Tudo ordenado de forma coerente com o tom cinza do realce “rock” e “urbano” que tanto corta os laços e possíveis associações com o hoje tímido primeiro álbum do trio.
 
Com uma estrutura ainda difícil de ser compreendida, o disco amplia de forma bastante visível o que fora concebido previamente por Dinucci (dentro do Passo Torto), como por Thiago França (na execução do recente primeiro álbum do Sambanzo). Fica na extensão de MetaL MetaL a sensação de que tudo o que foi produzido de maneira individual pelos músicos (além da própria vocalista) se manifesta como um aprendizado para o que é concluído pelo trio no presente instante. Um registro que até permite uma parca compreensão e possível entendimento, mas que mantém oculto ou revelando em doses grande parte do que mantém submerso nas camadas de cada composição. (Texto: Miojo Indie).
 

Discografia
 
Senha dos arquivos: brrock

 
Metá Metá (2011)
01. Vale do Jucá
02. Umbigada
03. Papel Sulfite
04. Trovoa
05. Samuel
06. Vias de Fato
07. Oranian
08. Obá Iná
09. Obatalá
10. Ora Iê iê o



MetaL MetaL (2012)
01. Exu
02. Oya
03. São Jorge
04. Man Feriman
05. Rainha Das Cabeças
06. Cobra Rasteira
07. Logun
08. Orunmila
09. Tristeza Não



EP (2015) [EP]
01. Atotô
02. Me Perco Nesse Tempo
03. Sozinho

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MM3 (2016)
01. Três Amigos
02. Angoulême
03. Imagem do Amor
04. Mano Légua
05. Angolana
06. Corpo Vão
07. Osanyin
08. Toque Certeiro
09. Oba Koso



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